IN VI SI BLÉ
ANEXAR REVISÃO E CONTINUAÇÃO.
De fato, o fato é que a cultura do pixo facilmente
nota-se como machista e misógena. Pixação é uma expressão de revolta
diante das desigualdades sociais, é um grito que muros, prédios e portas berram
diante do descaso da política burguesa. Pixação é um ato político de expressão
livre.
Tratando-se de Brasil, resquícios da ditadura surtem
efeitos até hoje, e claramente se percebe na Cultura de rua. De antemão,
voltando a poucos anos atrás com a Ditadura Militar, Mulheres de guerrilha
foram protagonistas de inúmeros atos contra a repressão, lutaram friamente
armadas diante das armadilhas do governo brasileiro na época dos Anos de
Chumbo, porém sempre e até hoje foram invisibilizadas.
"Historicamente, no Brasil, a figura do
desobediente político é sempre do homem, a mulher fica reservada ao lar ou tem
uma pequena esfera de ação dentro das tarefas do cotidiano."
Batalhamos para votar, resistimos para ocupar e
lutamos pelo nosso direito de voz ativa frente a uma sociedade limitada.
Limitar as mulheres a atos mais contidos, vestimentas recatadas e trabalhos
superficiais direcionados para e por homem sempre foi aceito, baseado em
ensinamentos mal interpretados (mentirosos) e ultrapassados como a Bíblia, por
exemplo, que diminui a mulher e a sua real importância, coloca-a simplesmente
como uma reprodutora e tutora solitária de sua ninhada (família, filhos). Mas,
nós mulheres, sabemos que tivemos muitas irmãs na guerrilha, linhas de frente,
também arquitetando pelas entranhas e movendo-se nas escuras, tão protagonistas
ou até mais, que os homens. Porém, silenciadas.
Na cena da pixação é igual.
Inviabilizam as condições da mulher. Diminuem
nossa militância e fragilizam nossa anarquia e revolta, como um simples
"surto hormonal". Reduzem nossa visão criativa e instintiva como
momentânea ou sem sustentação.
Há vários anos frequentando lugar e convivendo com
pixadores homens, percebo isso. As falas são enraízadas de machismo e a cena
simplesmente homoparticipativa. Aqui o grande alerta sobre a masculinidade
tóxica que muitos pixadores e grafiteiros tendem a ter.
Muito se pensa sobre serem descolados e "vividos",
porém o alerta máximo é diante dessa masculinidade tóxica que desenvolvem por
todos esses fatos já postos e pelo pixo ter sido fundamentado em apenas um
gênero participativo por muito tempo, o masculino. Assim como o exército, as
congregações da igreja (padres, bispos etc).
A formação de um esquerdo-macho nessa tribo é
altamente fácil, pois se escondem atrás de sua sagacidade e vivência, mascarada
com a homoparticipação, que gera a proliferação de relações homoafetivas e
neste caso é sempre a admiração, reconhecimento e respeito por outros homens, o
que gera uma sexualidade predatória para nós mulheres. Ou seja, não somos
símbolo de respeito ou admiração, ocupamos lugares de inferioridade.
Não se pode negar o fato de que é muito menos
preocupante, se alguma autoridade ou a tal família tradicional, vê uma mulher
ou um grupo de mulheres e até mesmo um casal tarde da noite na rua. Para uma
mulher só, o perigo é constante, para o resto, apenas uma mulher. Não vou
entrar em detalhes sobre muitas outras consequências que esse pensamento
machista acarreta, como a cultura do estupro e por aí vai.
Agora, essa invisibilidade, de qualquer maneira
ajuda até hoje, porque o fato de a mulher quase nunca ser suspeita de entrar em
um assalto, por exemplo, também a protege. Uma mulher na rua não gera tanto
perigo ou ameaça assim, e é aí agimos nas estranhas da estrutura fragilizada do
pensamento mesquinho do sistema. Articulamos nossos métodos e nós pixadoras nos
aproveitamos disso mediante ao "cale-se" perpetuado por muitas e
muitas décadas.
Essa invisibilidade foi causada pela ditadura,
pois as mulheres que participaram da luta armada, geralmente, eram inocentadas
na Justiça Militar, diziam que elas tinham sido levadas a fazer ações por conta
de seus namorados, maridos, irmãos… o que não era verdade. Advogados usavam-se
destes argumentos para liberar as mulheres, para dizer que elas não eram
culpadas pelas ações, que não tinham panfletado ou feito pixação. Também sem
entrar em detalhes das muitas companheiras que foram torturadas, estupradas,
desapareceram e morreram.
Em todas as
ditaduras, o arcabouço prático e jurídico era desmerecer a mulher e sua
capacidade política, resumindo como a mãe de família, cuidadora dos filhos e da
casa, nunca envolvida em nada que fosse público. É um pensamento conservador
que existe até hoje. O modo de agir fechado de todo o regime militar era
baseado em desmobilizar politicamente o homem e, principalmente, a mulher,
porque ela tem um espírito "pacífico" na visão da repressão. Então a
ditadura limitou o espaço da mulher ao lar.
Nos documentos da
Justiça Militar e na própria imprensa da época (e até hoje), relatava-se:
"Mulher de fulano foi envolvida sentimentalmente e fez processos para a
organização porque estava apaixonada". Isso foi uma maneira da repressão
não chamar a atenção para a militância feminina como independente e autônoma.
Até hoje e há bem
pouco tempo atrás li isso pelo facebook ou em notas de redes sociais e mídias
online: "Mulher do Jay-Z ganha GRAMMY" ou "A mina do Surto, a Invisível",
rs.
Por fim, são resquícios dessa ditadura que ainda nos
afetam diariamente. Existe uma política de apagamento, herdada até hoje na
Cultura de Rua, em que se elege algumas e se despreza outras. Seguimos em
frente, observando e absorvendo tudo que há de necessário. Poder as Mulheres,
poder ao povo.
(.....) Continua.
Mulheres Unidas, jamais serão vencidas.


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